deadline

Tinha apenas passado uma semana desde que eu tinha feito os exames. quando os fiz, não estava la muito preocupada. para ser sincera, só os fiz para satisfazer a vontade à minha mãe, visto que ela se preocupa mais com isto do que eu. sai de la como entrei - a mesma. e depois de ter abandonado o hospital, tinha intenção de nunca mais la voltar. até ao dia em que o médico me telefonou e marcou uma consulta de urgência.

apanhei o 22 e fui até à ultima paragem, onde se situava o centro hospitalar da Vila do Luxemburgo. entrei e dirigi-me ao secretariado, onde confirmaram a minha consulta e me mandaram subir. não precisava que ninguém me indicasse o caminho. já conhecia aquele hospital demasiado bem para o meu gosto. subi as escadas - não estava com vontade de esperar pelo elevador - e percorri um corredor atrás do outro, até chegar ao que eu pretendia. sentei-me na sala de espera, onde já se encontravam algumas mulheres sentadas, e esperei. até que ouvi o meu nome ser chamado uns poucos minutos depois.

a secretaria do médico indicou-me o consultório e pediu que aguardasse uns momentos, que o médico estava quase a chegar. finalizou com um sorriso, que eu retribui. sentei-me então numa das duas cadeiras em frente ao escritório e aguardei. tal como ela me tinha assegurado, após uns momentos, o médico entrou.

era a primeira vez que tinha uma consulta com este. a minha mãe já me tinha falado nele. é daqueles que trata de casos mais delicados e coisas do género. entrou e tinha uma ficha nas mãos que observava com muita atenção. fechou a porta, ainda com os olhos fixados na ficha.
"presumo que seja a Jennifer." estendeu-me a mão no vazio. estiquei então o meu braço e dei-lhe um passou-bem.
"desculpe, não consigo pronunciar os seu apelido. Abra..n..tes?
"é mais ou menos isso." gozei.
quando olhou para mim, o olhar dele preencheu-se de piedade. dava para notar.
"és tão nova. pelo menos pareces ser." afirmou, com um tom repleto de piedade, tal como o seu olhar.
"tenho 18 anos. mas isso não esta escrito na ficha?" estranhei.
ele voltou a dar uma vista de olhos.
"Oh, sim! esta aqui. desculpa, mas analisei de uma forma tão profunda o diagnóstico que pronto, escaparam-me algumas informações básicas." dirigiu-se até ao seu escritório, puxou a cadeira para trás e sentou-se.
"Sabes, quando as coisas acontecem assim do pé para a mão, agente tem tendência em focarmos-nos mesmo sobre o essencial."
"pensava que a idade também jogava muito com isto."
"sim, mas também depende dos casos." esboçou um sorriso quadrado. "mas, pronto. vamos la falar do que interessa." fez uma pausa. "tu sabes que chegaram os resultados dos teus exames."
"sim." retorqui.
"pronto, e...como é que hei-de dizer isto..." começou a roçar uma mão contra a outra. "a primeira vez é sempre difícil. não que as outras não sejam, quando estas existem. mas a primeira vez costuma ter um impacto mais bruto nos pacientes, percebes?"
"sim."
"e para os médicos as coisas também se tornam mais difíceis, principalmente quando a paciente é uma adolescente." coçou a testa. "estive a analisar o teu diagnóstico. primeiro, sozinho. depois, pedi a um colega meu que o analisasse comigo. sabes, é só para termos varias opiniões sobre o assunto." explicou.
"eu percebo."
"então é o seguinte...encontramos metastases no teu sistema. mais propriamente no tecido mamário do teu peito direito. já la têm estado à mais tempo do que desejado e pode-se dizer que já estão num estado bastante avançado." continuou a explicar.
não vou negar que aquela revelação mexeu comigo. não consegui dizer muita coisa, e também não consegui expressar quais queres sentimentos fisicamente.
"é maligno então?" perguntei, já sabendo a resposta.
"sim. infelizmente, é"
continuei sem qualquer reacção fora do comum.
"sei que te estas provavelmente a sentir confusa, transtornada e coisas do género. mas sabes que hoje em dia, ter cancro já não é o que era antes. há vários tratamentos que resultam bem. " tentou assegurar-me.
"sim, eu sei." estava a estranhar a calma que estava a sentir. "mas por enquanto, preciso de pensar, preciso de estar sozinha, um pouco."
"é compreensivel. eu deixo-te ires agora para casa e daqui a uns dias ligo-te para marcarmos uma consulta. assim estarás mais calma e poderemos ver juntos que tipo de tratamento preferes fazer."
"não é preciso." disse.
"como?" perguntou, sabendo que tinha ouvido bem o que eu disse, mas mesmo assim, preferiu assegurar-se.
"não é preciso." repeti.
"como assim não é preciso?" suspirou. "eu sei que é difícil e tu já conheces um pouco este mundo. mas tens de ter força e não podes abdicar da tua vida assim sem lutares."
"exacto. "esse mundo" que não é o meu. recuso-me a ter de fazer sofrer as pessoas à minha volta. de que vale? você viu bem o diagnóstico, sabe bem que a esta altura, só um tratamento agressivo poderia ajudar. já que vou sofrer, preciso fazê-lo no meu mundo."
cruzou as mãos e olhou para mim com um ar sério.
"tens a noção de que, se tomares essa decisão, a tua vida ira passar a ter um prazo e validade."
"se formos a ver, sempre teve. a vida de todos tem. até a sua."
e sai porta fora.

enfiei as mãos nos bolsos das calças e percorri o mesmo caminho até à saída - passei por uma data de corredores, desci as escadas e passei pelo átrio. senti um alivio enorme ao inspirar aquela brisa fresca de fim de verão. se tivesse permanecido naquele estabelecimento durante uns minutos mais, teria sufocado naquele ar empestado de cheiro a medicamentos.

ele tinha razão, o médico. eu estava confusa, eu estava transtornada. acho que não era de esperar menos. eu no meu estado normal não lhe teria respondido daquela maneira, mas eu não podia ser bombardeada com palavras de misericordia. nunca gostei disso. então naquela situação, estava completamente fora de questão.

23 comments:

  1. espero que isto seja completamente ficção... adorei o texto *

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  2. jay, isto é fictício, não é? :|

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  3. não, mas está muito bem feito, a sério. tão bem feito, que eu estava a meio do texto e a desejar que não fosse verdade. ahah.

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  4. oh jay!
    força. seja ela usada pra qualquer decisão que seja a tua..

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  5. não digas nada, eu sei que está estupido, ahah.

    can we talk about this text later?

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  6. Mas está parva ahah, andei a vaguear pelas estatísticas do blog, depois vi aquilo e deu-me pra fazer aquilo, haha.

    Ahhh, omfg que alívio, já estava a ficar: WHAAAAAAAAAAAAT? :|

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  7. faaaz, eu sinto-me bué bem a fazê-lo, e a escrever lá cenas e colar e etc etc, a sério xD
    aish, sei lá né ._. depois de ter lido isto, coiso :o

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  8. vale a pena, sim :D tipo o fim é totalmente insperadoo. não é dos meus filmes preferidos ainda assim mas acho q até vale a pena

    pronto, ja ca nao está quem falou :c

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  9. date night já viii, está nos meus preferidos, é tão awesome *-*

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  10. epa sinceramente nao é daqueles q me chamam muita a atençao xD

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  11. acho que não és a única, ahah xD

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  12. já sabes o que penso sobre este :/

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  13. é bom saber, por momentos assustei-me :p então tenho de dizer que tens muito jeito para a escrita, a sério.

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  14. é de algum filme a imagem? como se chama? XD

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